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Alterações climáticas e desnutrição mundial, como o Brasil deverá lidar com essa luta pelo futuro?

25Out / 2018

Alterações climáticas e desnutrição mundial, como o Brasil deverá lidar com essa luta pelo futuro?

Diante de toda preocupação mundial com o avanço desenfreado da fome e das mudanças climáticas causadas pelo manejo inadequado do meio ambiente, o Brasil enfrenta o desafio de se tornar digno de ser chamado de “o celeiro do mundo”.

Assim como foi traçado o objetivo das nações unidas de erradicar a fome do mundo até 2030, também segue a luta para atingir a meta de redução da emissão de gases de efeito estufa em 43% até 2030, como foi estipulado no Acordo de Paris, unindo 195 países com o objetivo de reduzir a emissão de gases de efeito estufa (GEE).

Embora os dois objetivos sejam bem distintos um do outro, o Brasil pode ter um papel fundamental na solução de ambos. Hoje no país, temos mais de 100 milhões de hectares de pastagens em processo de degradação (DIAS-FILHO; 2014), sendo que essa degradação biológica, quando ocorre a inexistência de cobertura do solo, facilitando a erosão, expondo a camada de matéria orgânica do solo, que resulta assim na baixa produtividade por área e baixa mitigação de carbono do ambiente.

Segundos dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), o número de pessoas que sofrem desnutrição do mundo aumentou nos últimos três anos. Este índice começou a ser monitorado em 2005 e começou apresentar crescimento em 2014, o que aumenta consideravelmente a preocupação com a meta a ser atingida.

Figura 1. Crescimento dos números da desnutrição humana a partir de 2014 no mundo.

Os principais agentes causadores deste quadro mundial, segundo a FAO, são os conflitos entre os países, crises econômicas e variações climáticas. Esta última foi a mais impactante em função dos desastres climáticos e dos extremos de temperatura. No trabalho para inversão desse quadro, o aumento da produtividade e diminuição do desperdício, se trabalhado pelo Brasil, podem causar um grande benefício de impacto mundial.

Ainda sobre alterações climáticas, os olhos de todos estão voltados para o aquecimento global. O Acordo de Paris adotado durante a Conferência das Partes – COP 21, em Paris no ano 2015, pretende frear o aquecimento global diminuindo a emissão de gases de efeito estufa (GEE), e por sua vez, o uso da terra nos sistemas de produção está diretamente ligado com essa troca de gases com a atmosfera.

As trocas de gases dos sistemas com a atmosfera começa com o uso do solo. A pecuária e a agricultura a princípio precisavam de práticas de manejo convencional do solo, práticas essas que ao revolver o solo expõem a camada de matéria orgânica para a superfície, volatilizando o carbono orgânico para a atmosfera. A volatilização deste carbono pode vir acontecer por resultado também da erosão e lixiviação, que por sua vez também são resultados de práticas inadequadas de conservação do solo.

A perda de desse carbono para a atmosfera nessa atividade extrativista reduz os estoques de carbono orgânico do solo. A falta deste carbono orgânico interfere em vários aspectos da produtividade dessas áreas que, por mau manejo, se tornam áreas de baixa produtividade e propícias a degradação biológica.

Segundo o estudo de Ruggieri e Cardoso (2016) na Figura 2, podemos observar a variação de estoque de carbono orgânico no solo após o desmatamento para o uso dos sistemas de produção e o momento em que atinge o equilíbrio. A partir de 20 anos de desmatamento foi possível recuperar o estoque de carbono do solo com o uso de práticas sustentáveis.

Figura 2. Variação nos estoques de carbono após a conversão da floresta em pastagem e agricultura. Mudança do uso da terra de pastagens para sistemas de integração-lavoura-pecuária (ILP) e integração-lavoura-pecuária-floresta (ILPF) (RUGGIERI E CARDOSO; 2016).

O início de novos métodos de produção sustentáveis com a integração de culturas possibilita ao produtor passar da produção extensiva para a intensiva. Sistemas extensivos de produção acabam sendo fontes de GEE enquanto que sistemas intensivos, sejam integrados ou não, possuem grande potencial de mitigação e até de estoque de carbono.

As áreas brasileiras que possuem sistemas extensivos de produção, com baixa inclusão de tecnologia, poucas práticas agrícolas e manejo incorreto, é uma atividade insustentável, onerosa, que não consegue diluir os custos fixos da fazenda e que não compete com o custo de oportunidade, sendo cada vez mais pressionada pelo mercado.

Um manejo intensivo colabora com o meio ambiente, pois compensa as emissões de gases causadores de efeito estufa, proporciona um aumento na produtividade, aumento do giro e de escala de produção. O Brasil tem grande potencial de fazer a diferença com a sua intensificação, gerando mais alimento por área, estoque de carbono e lucratividade. Assim nos tornaremos mais do que o celeiro do mundo e sim exemplo de sustentabilidade para todas as nações.

Gustavo Trivelin

Zootecnista Coimma

 

Bibliografia

BRANDÃO, Tamara Pereira et al. Estoque de carbono orgânico total do solo em diferentes profundidades e espécies gramíneas no sistema iLPF. Anais da Semana de Ciências Agrárias e Jornada de Pós-graduação em Produção Vegetal (ISSN 2594-9683), v. 14, p. 88-91, 2018.

LAL, R1. Global potential of soil carbon sequestration to mitigate the greenhouse effect. Critical reviews in plant sciences, v. 22, n. 2, p. 151-184, 2003.

LIVEIRA, Patrícia Perondi Anchão et al. Balanço e emissões de gases de efeito estufa em sistemas integrados. In: Embrapa Pecuária Sudeste-Artigo em anais de congresso (ALICE). In: CONGRESSO BRASILEIRO DE SISTEMAS INTEGRADOS DE PRODUÇÃO AGROPECUÁRIA, 1.; ENCONTRO DE INTEGRAÇÃO LAVOURA-PECUÁRIA NO SUL DO BRASIL, 4., Pato Branco, 2017, Palestras: intensificação com sustentabilidade. Cascavel: UTFPR, 2017.

RUGGIERI, Ana Cláudia; DA SILVA CARDOSO, Abmael. Balanço de carbono em sistemas de produção animal: fontes de emissão e opções de mitigação. Archivos Latinoamericanos de Producción Animal, v. 25, p. 1-2, 2017.

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